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Tenho um autoanticorpo (FAN, Fator Reumatoide, entre outros) positivo, o que significa e o que devo fazer?

  • Foto do escritor: Rebeca Narcisa
    Rebeca Narcisa
  • 12 de jul.
  • 4 min de leitura

Se você recebeu um resultado de FAN ou Fator Reumatoide positivo e está em dúvida sobre o que isso significa, já começo com uma ressalva: calma, pois esses exames podem ser positivos em uma parcela da população que nunca desenvolverá uma doença autoimune. Logo, a avaliação desses exames nunca é feita de forma isolada e sempre exige cautela.


O que são anticorpos e autoanticorpos?


O termo utilizado no título, autoanticorpos, pode gerar dúvida, afinal o que isso quer dizer? É a junção de duas palavras: auto + anticorpos. Um anticorpo é uma proteína produzida por uma de nossas células de defesa, os linfócitos B ou plasmócitos, e tem o intuito de funcionar como parte da fiscalização do sistema imune. Os anticorpos são capazes de reconhecer estruturas, usualmente pequenas partes de microrganismos que não deveriam circular pelo nosso sistema sanguíneo. Logo, ao reconhecer algo como estranho, eles passam a se ligar àquela estrutura, alertando os seguranças, macrófagos, neutrófilos, entre várias outras células, que ela deve ser removida daquele local.


E os autoanticorpos?


Os autoanticorpos surgem a partir de um defeito no nosso sistema de tolerância, que tem como função identificar o que é próprio (parte do indivíduo) e o que é impróprio (externo, logo deve ser eliminado). Com isso, produzimos anticorpos contra estruturas próprias ao nosso corpo. Esse é um dos mecanismos pelo qual podem ocorrer doenças autoimunes, pois os anticorpos se ligam a estruturas que fazem parte dos nossos órgãos e passam a ser atacados pelos seguranças, que por sua vez chamam novos seguranças, o que pode desencadear a inflamação. Por isso, a presença de autoanticorpos pode ser um marcador de uma doença autoimune.


Quer saber um pouco mais sobre o que é uma doença autoimune e sobre o papel do sistema imune no seu surgimento? Clique aqui.


O que significa ter um autoanticorpo positivo?


A presença de autoanticorpos pode favorecer a ocorrência de um processo inflamatório. No entanto, a falha da tolerância e a formação de autoanticorpos não são os únicos fatores necessários para o desenvolvimento de uma doença autoimune. Alguns outros fatores que podem ser necessários incluem: susceptibilidade genética, disfunção em outras células ou mecanismos imunes e alguns fatores que ainda não são completamente conhecidos, pois ainda existem lacunas na compreensão de por que, como e em quem essas doenças ocorrem.


Logo, a presença de um autoanticorpo de forma isolada nunca é suficiente para o diagnóstico de uma doença autoimune, pois essas doenças podem ocorrer na ausência desses autoanticorpos em exames laboratoriais, e pessoas com exames positivos podem nunca desenvolver doenças autoimunes.


Os dois autoanticorpos citados no título, FAN e Fator Reumatoide, exemplificam essa situação.


O FAN é realizado através de uma técnica denominada imunofluorescência indireta, em que o responsável pela análise no laboratório identifica padrões de brilho (fluorescência), além da titulação. A diluição ideal definida como positiva deve considerar a detecção de autoanticorpos (teste positivo) em cerca de 5% da população normal; usualmente os valores de referência utilizados são 1/80 (mais permissivo) e 1/160 (mais restrito). A presença de um alto título de FAN de forma isolada ainda não é diagnóstico para uma doença autoimune, pois uma diluição de 1/160 pode ser positiva em 5% da população adulta hígida. Isso porque a prevalência de doenças associadas ao FAN na população é de cerca de 1%, logo 4 em cada 5 pessoas terão um teste falso positivo. Por isso, o teste não pode ser util

izado para rastreio da presença de doença autoimune em uma população saudável.

  • A prevalência ainda aumenta com a idade e é duas vezes mais provável em mulheres que em homens.

  • O FAN também pode ser detectado no soro de pacientes com condições não autoimunes, incluindo infecções, malignidade, medicamentos e pessoas que têm história familiar de autoimunidade.


Microscópio
O microscópio é utilizado para a avaliação do padrão do FAN

Já o fator reumatoide pode estar presente em até 15% da população hígida, especialmente idosa, além de poder estar presente em pacientes com doenças infecciosas. Logo, também são valorizados resultados com títulos mais elevados.


Todos esses fatores são os motivos pelos quais esses exames devem ser idealmente solicitados apenas em pessoas com alterações (sinais ou sintomas) sugestivas de doenças autoimunes. A depender do rigor na solicitação do FAN, por exemplo, o percentual de pacientes com doença autoimune varia de 9 a 51%.


Como deve ter notado, a interpretação de um autoanticorpo positivo é mais complexa do que checar se o valor está fora do intervalo de referência. Por isso, o significado de um autoanticorpo positivo deve ser sempre considerado por um profissional médico em conjunto com as manifestações relatadas pelo paciente. Apenas esse conjunto de manifestações e alterações em exames laboratoriais, incluindo os autoanticorpos, permite o diagnóstico de uma doença autoimune.


O que devo fazer e quando devo procurar um reumatologista?


Se chegou até esse ponto, imagino que o leitor ou alguém próximo tenha um autoanticorpo positivo, e que esse exame tenha sido solicitado por um médico. Logo, o primeiro passo é procurar novamente o atendimento com um médico, se possível o solicitante do exame, pois ele já conhece a sua história clínica. O profissional deve realizar a avaliação das manifestações em conjunto com as possíveis alterações laboratoriais e definirá se é necessária extensão da investigação ou encaminhamento a outro especialista.


Agora, se a dúvida é: "quando devo procurar um reumatologista?", tem um artigo no blog que responde justamente essa pergunta e que pode ser acessado clicando aqui. Contudo, saiba que a presença de autoanticorpos positivos em pacientes com alguns sinais/sintomas possivelmente associados a doença autoimune é uma das maiores motivações de encaminhamento à Reumatologia.



Referências


Caso queira se aprofundar no tema, leia as referências abaixo. Um dos textos referenciados foi escrito originalmente em inglês, mas os link fornecido já foi automaticamente traduzido com o auxílio do Google Tradutor.

  1. Fator antinuclear (FAN): Dicas para a interpretação dos resultados. Sanarmed. 2023. [LINK]

  2. Decoding the ANA: A Guide to ANA Testing. Division of Rheumatology, Allergy, and Immunology. 2024. [LINK]

 
 
 

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Reumatologista

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