Análogos de GLP-1 e as Doenças Reumatológicas
- Rebeca Narcisa
- 19 de jun.
- 5 min de leitura
Atualizado: há 18 horas
Os análogos do receptor GLP-1, que talvez você conheça como semaglutida (Wegovy, Ozempic, Poviztra) e tirzepatida (Mounjaro), são provavelmente alguns dos medicamentos mais comentados no momento. A demanda por mais informações é consequência de suas indicações já bem consolidadas, como no tratamento da Diabetes Mellitus do tipo 2 e da Obesidade, além de diversos usos em potencial ainda em estudo. A Reumatologia, apesar de não estar no centro, também não está por fora desta discussão e recentemente tenho me deparado em algumas ocasiões com dúvidas de pacientes quanto ao uso em doenças reumatológicas e para tratamento de comorbidades em pacientes que já possuem uma doença reumatológica. Contudo, é importante ressaltar que como todo e qualquer medicamento é necessário que haja cautela, uma vez que o uso correto exige indicação e acompanhamento adequados. Dessa forma, o objetivo deste texto é falar um pouco sobre o que são esses medicamentos e quanto às áreas em estudo no âmbito da Reumatologia.

O que são os análogos de GLP-1 e suas indicações formais
Os análogos de GLP-1 são medicamentos que foram originalmente concebidos para o tratamento do diabetes, pois são capazes de aumentar a produção de insulina, logo diminuir a glicose no sangue. O primeiro representante dessa classe foi a exenatida em 2005, entretanto eles ganhariam força a partir da aprovação da liraglutida em 2010, que seria seguida pela semaglutida e tirzepatida em 2017 e 2022, respectivamente. Entretanto, durante os estudos desses medicamentos, outros possíveis usos e efeitos se tornaram evidentes com destaque para a perda de peso, proteção renal e cardíaca e controle da doença hepática gordurosa. Dessa forma, descrevo a seguir quais são as indicações já aprovadas pela Food and Drug Administration (FDA) para a tirzepatida e semaglutida:
Diabetes tipo 2 (semaglutida e tirzepatida).
Tratamento de obesidade (semaglutida e tirzepatida).
Redução do risco cardiovascular em pacientes com diabetes tipo 2, obesidade ou doença cardiovascular estabelecida (semaglutida).
Proteção renal em pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica (semaglutida).
Esteato-hepatite metabólica com fibrose hepática significativa (MASH) (semaglutida).
Destaco que a existência de indicação formalizada não é sinônimo de obrigatoriedade de uso, uma vez que a prescrição de qualquer medicamento deve ser sempre individualizada e avaliada por um médico com conhecimento sobre o medicamento para um seguimento adequado.
Efeitos adversos
O motivo pelo qual a indicação é individualizada e o seguimento deve ser realizado inclui a possibilidade de ocorrência de alguns efeitos adversos já conhecidos, mais ou menos raros, entre eles estão:
Efeitos gastrointestinais (mais comuns): náusea, diarreia, constipação e vômitos. São os efeitos mais comuns e ocorrem com maior frequência nas primeiras 8 semanas de tratamento. São o principal motivo de abandono do tratamento em 4-8% dos pacientes incluídos nos estudos já realizados.
Colelitíase: o risco de formação de cálculos biliares parece estar elevado, mas ainda exige mais estudos.
Hipoglicemia: em pacientes em uso de outros medicamentos hipoglicemiantes, usualmente no tratamento da diabetes tipo 2.
Pancreatite: efeito adverso raro.
Perda muscular: importante e consistente efeito adverso causado pela perda sustentada de peso. Ainda há poucos dados das consequências a longo prazo.
Perda de massa óssea: estudo recente demonstrou uma perda significativa, mas ainda são necessários mais estudos para avaliação do risco de fratura e de Osteoporose.
Outros efeitos relatados: fadiga, tontura, cefaleia, alteração de humor, anafilaxia.
Importância do acompanhamento multidisciplinar
O conjunto de efeitos adversos e indicações implica em um tratamento multidisciplinar envolvendo endocrinologistas, nutricionistas, educadores físicos, podendo incluir ainda: cardiologistas, nefrologistas, fisioterapeutas e muitos outros. Ou seja, são medicamentos com grande possibilidade de impacto na saúde, e até mesmo qualidade de vida, quando bem indicados, mas ainda de alto custo financeiro e grande demanda de profissionais de saúde no suporte ao tratamento. Além disso, devido ao alto custo desses medicamentos, a compra deve ser sempre realizada em um estabelecimento confiável e de fabricantes aprovados pela Anvisa.
Áreas em estudo na Reumatologia
Após a revisão dos análogos do GLP-1, vale a pena comentar um pouco sobre o impacto do uso desses medicamentos no tratamento de doenças reumatológicas. Lembrando, a Medicina está em constante atualização, logo o panorama a seguir representa a realidade na data de publicação deste artigo.
Os agonistas do receptor de GLP-1 demonstram potencial terapêutico nas doenças reumatológicas através de efeitos anti-inflamatórios, imunomoduladores e cardiometabólicos, que vão além da perda de peso. As evidências atuais sugerem a possibilidade de benefícios na artrite reumatoide, artrite psoriásica, osteoartrite, lúpus eritematoso sistêmico, fibromialgia e gota, embora a evidência atual ainda seja insuficiente para recomendar esses medicamentos como terapia padrão, pois a maioria dos dados é preliminar e exige a confirmação em estudos de maior escala.
Provavelmente, a doença em que há evidência de maior qualidade já disponível demonstrando um possível benefício é a artrite psoriática, onde dados clínicos retrospectivos demonstraram que os pacientes apresentaram perda de peso clinicamente significativa com redução de marcadores de inflamação (proteína C reativa), melhora da dor, escores de atividade e qualidade de vida. Há estudo prospectivo em andamento avaliando o uso da tirzepatida em associação com o ixekizumabe (inibidor da IL-17A).
Um dos principais desafios atuais é a distinção entre efeitos metabólicos (perda de peso, proteção renal e cardíaca) de efeitos diretos no controle da doença, uma vez que o impacto negativo da obesidade no controle de múltiplas doenças reumatológicas é algo já conhecido, logo a perda de peso poderia explicar grande parte do efeito benéfico no controle da doença. O uso na artrite psoriática é um representante desta dúvida, assim como o uso na fibromialgia, em que há um único estudo com dados retrospectivos demonstrando benefícios.
Conclusão
Em resumo, os análogos do receptor de GLP-1 apresentam efeitos benéficos já bem estabelecidos, porém exigem indicação individualizada e seguimento por profissionais capacitados para que seja alcançado o melhor resultado com o menor risco possível. Já especificamente na Reumatologia, os estudos estão a todo vapor, mas ainda não temos informações suficientes para realizar indicações exclusivamente com este fim. Contudo, como disse anteriormente, a Medicina é altamente mutável e caso haja novidades divulgo as atualizações.
Referências:
Os seguintes artigos têm como alvo os profissionais de saúde, logo constituem as referências técnicas utilizadas:
Rosen CJ, Ingelfinger JR. GLP-1 Receptor Agonists. New England Journal of Medicine. 2026 Apr 2;394(13):1313–24. [LINK]
Glucagon-Like Peptide-1 (GLP-1) Receptor Agonists in Rheumatology: A Review of Current Evidence and Future Directions. Bilgin E, Venerito V, Bogdanos DP. Autoimmunity Reviews. 2025;24(9):103864. [LINK]
Caso queira se aprofundar no tema, as referências abaixo têm como alvo o público em geral:
Mehrtash F, Dushay J, Manson JE. I Am Taking a GLP-1 Weight-Loss Medication—What Should I Know? JAMA Internal Medicine [Internet]. 2025 Jul 14. [LINK]
O link disponibilizado está em inglês, mas o texto pode ser traduzido com o auxílio do Google Tradutor ou qualquer outra ferramenta de tradução de texto.
Sociedade Brasileira de Diabetes. Alerta sobre o uso de medicamentos alternativos ou manipulados para obesidade e diabetes [Internet]. Sociedade Brasileira de Diabetes. 2025. [LINK]
Varella D. “Canetas emagrecedoras”: por que a musculação precisa fazer parte do tratamento – DrauzioCast #257 [Internet]. Portal Drauzio Varella. 2026. [LINK]
Ribeiro M. Medicamentos para perda de peso: indicações, diferenças e riscos do uso inadequado [Internet]. Portal Drauzio Varella. 2026. [LINK]




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